Home / Espiritismo / Colunas / Um materialista cristão

Um materialista cristão

UM MATERIALISTA CRISTÃO

Sidney Fernandes – 1948@uol.com.br

         Adaptação da página A Festa, do livro Carcereiros, de Drauzio Varella, e da página Um choque de realidade, do livro O grande desafio, de Richard Simonetti

Geralmente guardamos prudente distância de lugares desagradáveis. De uma prisão, por exemplo, onde o ambiente é contaminado pelo vício, pela maldade e pelo desespero.

Mas, não foi o que aconteceu com Doutor Osvaldo, que, logo depois de alcançar a estabilidade de sua promissora carreira médica, ofereceu-se como voluntário de um dos presídios mais temidos do sistema carcerário brasileiro.

Esse não dura um mês… – profetizara Doutor Brasilino Cunha, experiente diretor daquela casa de detenção, que recebera o novo voluntário médico e já se acostumara com os fogos de palha que lá apareciam com entusiasmo passageiro.

Enganou-se redondamente. Doutor Osvaldo revelou-se uma das mais humanas, dedicadas e sensíveis criaturas que já adentrara naquelas muralhas. E durante os vinte e três anos que se seguiram, dedicou-se ao mundo dos detentos, sem qualquer compensação remuneratória.

E esse amor à medicina e essa dignidade profissional foram acompanhados de perto, em longo tempo de convivência, por Trovão, um detento que passou a auxiliar Doutor Osvaldo na enfermaria.

Por certo, pensava Trovão, Doutor Osvaldo deveria ser adepto de alguma rigorosa seita religiosa. Negativo! Era materialista de carteirinha. Acreditava no nada além da vida.

— Uai! Ruminava Trovão com seus botões. — Que recompensa ele procura, se nada ganha nesta vida e nada espera além da morte?

Foi a partir daí que Trovão passou a admirar ainda mais aquela alma boa, que cuidava até de quem não merecia, desinteressadamente.

-x-

O tempo passou. Doutor Osvaldo nunca mais teve contato com Trovão. Vamos encontrá-lo saindo de uma festa de aniversário com sua esposa. Ao tentar entrar em seu carro, estacionado em escura ruela, viu-se cercado por um bando armado, com intenção de roubá-lo e sabe-se lá o que mais.

De repente, irrompendo da escuridão, aparece Trovão, gritando:

— Pode parar, cambada! Não estão reconhecendo o nosso benfeitor? Esse aí é o Doutor Osvaldo, que cuidava da gente lá na cadeia!

Imediatamente, todos abaixaram suas armas, pediram desculpas ao Doutor Osvaldo e sumiram na noite.

No dia seguinte o médico vai reunir-se com velhos agentes, que se tornaram seus amigos próximos durante os mais de vinte anos trabalhando no sistema penitenciário.

Contou a história da noite anterior. Queria localizar Trovão para agradecer sua oportuna e salvadora intervenção. Os velhos agentes se entreolharam, espantados, e um deles, respeitosamente, dirigiu-se ao doutor, dizendo:

— Deve estar havendo algum engano, doutor. Não devia ser o Trovão…

— Não há engano. Tenho certeza de que era ele. O mesmo físico miúdo, a mesma voz tonitruante e a mesma onça em posição de ataque tatuada no antebraço.  

Novamente os velhos agentes se entreolharam.

— O que está havendo afinal? Não sabem como posso encontrar o Trovão? – insistiu Doutor Osvaldo.

— Doutor. Impossível que fosse o Trovão. Ele morreu há dois anos!

Não se sabe como ficaram as convicções materialistas do Doutor Osvaldo depois desse fato. Homem inteligente e perspicaz, deve ser refletido seriamente no assunto.

Doutor Osvaldo – um materialista com comportamento cristão! Graças a Deus!

Sobre Sidney Fernandes

Avatar
Sidney Fernandes (1948@uol.com.br) nasceu em Bauru, em 1948. Gerente do Banco do Brasil e Empresário, hoje está aposentado e se dedica integralmente à veiculação do Espiritismo. Participou ativamente da Mocidade Espírita até integrar-se ao Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru (SP). Escritor e orador profere palestras em várias cidades brasileiras. Veja página deste Autor

Veja

O Poder Das Mãos

Sidney Fernandes – 1948@uol.com.br Numa feliz coincidência, encontrei o velho Gumercindo e sua mulher num …

Esqueça-Me!

Sidney Fernandes – 1948@uol.com.br Acreditaria o caro leitor se eu lhe dissesse que, em 1931, …

Um comentário