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Um Infeliz Natal – Sidney Fernandes

UM INFELIZ NATAL

Sidney Fernandes

1948@uol.com.br

 27 de dezembro! Embora nesta época do ano as atividades do Centro Espírita Humberto Escobar fiquem reduzidas às suas reuniões públicas, pelas viagens e outras atividades de seus diretores e voluntários, Cristóvão não deixa de dar uma passada por lá. Há sessenta anos a sua rotina é a mesma, assim como a sua dedicação, materializada em seu permanente apostolado, ora como presidente, ora como voluntário da instituição espírita.

Assumiu perante si mesmo o compromisso de levar adiante a missão iniciada pelo fundador, que hoje dá nome ao centro, preservando os imensos patrimônios físicos que Escobar, num arroubo de coragem, construiu ao longo de toda sua vida dedicada àquela sublime causa, como também os espirituais, que representam a missão da casa.

Tudo está vazio, exceto pelo movimento de alguns servidores que cuidam do prédio e o preparam para a reunião da noite. Cristóvão faz a sua habitual vistoria e se prepara para voltar a sua casa quando vê, de longe, alguém sentado em uma das poltronas destinada aos frequentadores, cabisbaixo e, aparentemente, em péssimo estado emocional.

Não havia reconhecido no primeiro momento, mas logo vê que se trata de Edson Moreira, velho companheiro de lida espírita e seu colega na direção da casa.

Cristóvão conhece bem a sua história. Edson detesta natais. Espera sempre — na noite de 24 de dezembro — que os filhos se lembrem dele com um presentinho e o visitem ou deem um telefonema ou, ainda, obedecendo à modernidade, pelo menos lhe mandem uma mensagem por intermédio do celular ou do computador. Pelo jeito, naquele ano, embora crescidos e formados, os filhos se esqueceram completamente dele. Com a dissolução de seu primeiro casamento, embora seja natural que filhos se aproximem mais da mãe, Edson se viu isolado por eles.

Não obstante, sente falta do convívio dos filhos. Mesmo passados mais de dez anos, aparentemente há ainda resquícios do passado que os constrangem ao distanciamento, fiéis aos ressentimentos maternos.

Chegando até o local onde estava Edson, que resolvera fazer suas orações no centro e não esperava encontrar qualquer pessoa naquele recinto, Cristóvão sentou-se ao seu lado, em silêncio. Pelos longos anos de convivência, ambos já adivinhavam o que o outro estava pensando.

— De novo, Edson? — disse o amigo rompendo o pesaroso silêncio.

— Não consigo me acostumar, Cris — falou Edson num muxoxo. Mas desta vez tomei uma séria providência.

Temeroso de que o amigo houvesse cometido alguma bobagem, Cristóvão teve até medo de ouvir o que viria a seguir.

— Escrevi um longo e-mail àqueles ingratos com o meu desabafo. Chamei-os às falas, indagando se eles não têm personalidade própria. Lembrei-os de que não existem ex-filhos, nem ex-pais. E que a partir de agora não me procurem mais, principalmente quando precisarem do meu auxílio, o que, durante o ano, costuma acontecer com frequência. Eles que se virem com seus problemas. Demito-me da função de pai e mantenedor. Eles já estão bem crescidos!

Não fosse a gravidade da situação e a tristeza, Cristóvão teria dado uma sonora gargalhada diante da inusitada e quase risível e pitoresca providência do amigo. Preocupado com o futuro, pois Edson poderia estar plantando ventos, cujas previsíveis tempestades lhe provocariam sérios arrependimentos, perguntou:

— E o que eles responderam?

— Ainda não responderam, porque ainda não mandei o e-mail. Aprendi com a vida nunca adotar graves providências ao calor de mágoas e ressentimentos. Estou pensando ainda se devo ou não expedir o desabafo.

Ponderado, como sempre, e aliviado por ainda ter tempo para tentar ajudar o amigo naquele momento difícil, Cristóvão tirou Edson do local apertado em que estavam — aquelas estreitas e desconfortáveis poltronas do centro que realmente precisavam ser substituídas, pensou — levou-o até a sala da diretoria, contígua à sala de passes, e começou a falar, olhando nos olhos do amigo.

— Gostaria de lhe contar uma história que aconteceu com Lincoln — começou Cristóvão.

Edson, que de há muito admirava e bebia as palestras e as providenciais narrativas do amigo, que tantas vezes já o haviam feito refletir e mudar de ideia diante dos seus destemperos, interessou-se imediatamente, embora a situação depressiva que se lhe avizinhava.

— Narra Dale Carnegie que, durante a guerra civil dos Estados Unidos, — começou Cristóvão — houve um momento em que ela poderia ter acabado. O exército do General Lee estava abalado e, durante uma tempestade que assolava todo o país, começou a bater em retirada para o sul.

— Quando ele chegou ao Rio Potomac, com o exército da União ao seu encalço, deparou-se com um rio transbordante, impossível de ser transposto. Lee caíra numa armadilha. Não podia escapar. Lincoln viu isso. Era uma oportunidade única, concedida pelos céus para pôr um ponto final na guerra.

— E o que aconteceu então? — perguntou Edson, interessado e já menos tenso.

— Lincoln ordenou que seu General Meade atacasse Lee sem demora, sem mesmo ouvir um conselho de guerra. As ordens chegaram via telégrafo e um mensageiro especial foi enviado para que ele tomasse uma ação imediata.

— E o que fez o general Meade? — perguntou Edson.

— Justamente o oposto. Convocou um conselho de guerra, hesitou, retardou, desculpou-se, recusando-se a atender à ordem de atacar. As águas baixaram e Lee escapou.

— Não é possível — disse Edson. E o que fez Lincoln?

— Assim como você, sentou-se e escreveu uma carta para o General Meade “acabando” com ele e responsabilizando-o pelo infortúnio de não ter terminado com a guerra. E mais, terminou a carta dizendo que uma oportunidade “de ouro” havia sido perdida e ele, Lincoln, estava verdadeiramente sentido com isso.

— E o que fez Meade, demitiu-se? — voltou Edson.

— Meade nunca viu essa carta. Lincoln nunca a enviou ao seu destinatário. Ela foi encontrada entre os papéis de Lincoln, depois de sua morte.

— E por que ele não expediu a correspondência? Ele estava coberto de razões.

— Sim, Edson. No entanto, com a prudência e a empatia que sempre caracterizaram suas ações, Lincoln deve ter pensado no temperamento tímido de Meade, no sangue e nas dores que havia presenciado nos últimos dias e nos gemidos dos feridos e dos moribundos que teria ouvido durante a última semana. Sentado em seu gabinete da Casa Branca, era, para ele, fácil dar a ordem de ataque. Se estivesse no lugar de Meade, talvez não estivesse com tanta ânsia para atacar.

— De qualquer forma — deve ter pensado Lincoln —, a água já estava embaixo da ponte. Se tivesse mandado a carta, o presidente teria sua indignação aliviada, faria com que Meade se ressentisse profundamente e se visse obrigado a renunciar ao seu posto no exército — concluiu Cristóvão.

— Assim como você, caro Edson, Lincoln atirou a carta para o lado, porque aprendera, com sua experiência, que críticas e repreensões geralmente redundam em mágoas e futilidades.

Silenciosamente, Edson olhou profundamente nos olhos de Cristóvão e saiu, sem proferir qualquer palavra.

***

Dia 2 de janeiro! Novamente tudo vazio. Cristóvão está quase terminando sua vistoria, quando vê Edson novamente, sentado no mesmo lugar.

— Não é possível — pensou. Outra crise?

Logo seus temores se dissiparam. Edson esperava-o sorrindo, exatamente onde sabia que Cristóvão iria vê-lo.

— Vinguei-me! — exclamou Edson sorridente.

— Como assim, seu insano? O que você aprontou dessa vez?

— Antecipei-me e telefonei para todos eles logo que bateu o primeiro minuto do novo ano. Não permiti que eles decidissem a minha felicidade.

— E qual foi a reação deles? Atenderam seu telefonema?

— Não somente atenderam, como se desculparam e me surpreenderam com o carinho que eu nem pensava ainda existisse. Até marcaram um encontro, para nos vermos, sem o constrangimento materno.

— E o que fez mudar de ideia? Pelo jeito você não mandou o e-mail…

— Você e Lincoln me salvaram de minhas insanidades, das quais, com certeza, iria me arrepender.

***

 

Nunca jogue uma bola na vida, de forma que você não esteja pronto a recebê-la. A vida não dá, nem empresta. Não se acomoda, nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos.

Albert Einstein

***

Tudo o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-o assim também a eles.

Mateus, 7:12

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Querer o bem é impulso de todos, mas, na prática do estatuto sublime, é forçoso sejamos nós quem se adiante a fazê-lo.

Emmanuel

 

Deus não nos condena nem nos absolve. O Amor Universal está sempre pronto a soerguer-nos, instruir-nos, burilar-nos, elevar-nos, santificar-nos. O destino é a soma de nossos próprios atos, com resultados certos. Devemos sempre a nós mesmos as situações em que se nos enquadra a existência, porquanto recolhemos da vida exatamente o que lhe damos de nós.

André Luiz

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Sidney Fernandes

Sidney Fernandes (1948@uol.com.br) nasceu em Bauru, em 1948. Gerente do Banco do Brasil e Empresário, hoje está aposentado e se dedica integralmente à veiculação do Espiritismo. Participou ativamente da Mocidade Espírita até integrar-se ao Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru (SP). Escritor e orador profere palestras em várias cidades brasileiras. Veja página deste Autor

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