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Os Textos De Kardec Escondidos Por 150 Anos e o Fim da Fé Cega

Por Paulo Henrique de Figueiredo, escritor e pesquisador, São Paulo SP.

Não há dúvida, vivemos novos tempos quanto à compreensão do Espiritismo e de sua história. Isso acontece, principalmente, porque chegaram a nós fontes primárias inéditas, como cartas e documentos manuscritos originais de Allan Kardec, que afirmou, em 1867: “Eu os conservarei preciosamente, porque serão um dia os gloriosos arquivos do Espiritismo”, pois “o original, em lugar de ser descartado, está cuidadosamente conservado nos arquivos da Sociedade (…) arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas sobre peças autênticas” e não sobre “lendas, opiniões e tradições”.

E conclui: “Em presença destes testemunhos irrecusáveis, em que se tornarão, na sequência, todas as falsas alegações, as difamações da inveja e do ciúme?”.

Um dos casos mais alarmantes, que levou a desvios e falsidades na obra posterior à morte de Rivail, tanto na França quanto no Brasil, foi o dos advogados Jean-Baptiste Roustaing, André Pezzani, e seus seguidores. Examinando os manuscritos, sabemos que Allan Kardec foi alertado, numa conversa íntima e privada com os espíritos superiores, do que iria enfrentar em virtude da personalidade soberba de Roustaing, presa fácil para os propósitos dos inimigos invisíveis.

Kardec perguntou, em 1862: – Que influência pode ter o Sr. Roustaing?

E eles responderam: – Se você o vir, um simples golpe de vista o fará julgar o homem, e o que se deve esperar dele. Ele tem tanta confiança nas suas luzes que pensa que todos devem se curvar a ele. Vá se você estiver disposto a fazê-lo.

– A opinião de Roustaing tem algum crédito?

– Não, em geral ele passa por um entusiasta, exaltado, querendo se impor.

Qual a questão fundamental quanto a esse desvio doutrinário? Tentar falsear a proposta espírita com os velhos dogmas das religiões ancestrais. E com qual intenção?

Em A Gênese, também num trecho suprimido na edição adulterada, Kardec afirma que, na antiguidade, “A religião era, nesse tempo, um freio poderoso para governar”, os povos eram “subjugados”, a religião era apresentada como sendo “absoluta, infalível e imutável”, sendo que “disso resultou o princípio da fé cega e da obediência passiva. Quanto aos livros, “proibiam qualquer exame”. Qual o papel do Espiritismo? Ainda em trechos suprimidos na adulteração, afirma Kardec: “Longe de substituir um exclusivismo por outro, o Espiritismo se apresenta como campeão absoluto da liberdade de consciência. Combate o fanatismo sob todas as formas, cortando-o pela raiz”. Mas para conquistar esses valores sociais, ele “destrói o império da fé cega que aniquila a razão, a obediência passiva que embrutece; emancipa a inteligência do homem e ergue sua moral”.

Os dogmas das religiões ancestrais nasceram da imaginação dos homens, com a finalidade de subjugar as massas, sistemas que são frutos do preconceito e do desconhecimento dos fatos reais da vida futura. Surgiram assim as ideias de pecado e carma. Basicamente, essas falsas ideias consideram que Deus age com os homens por meio de castigos e recompensas, a partir da dor e do prazer, da mesma forma que os animais são treinados. Toda adversidade vivenciada no mundo seria castigo divino. Ou seja, quem vive condições mais adversas, seja na pobreza ou portando deficiências físicas graves, seriam os mais castigados, os mais culpados.

Talvez essa seja a maior injustiça desse falso sistema criado pelos homens.

No texto original de O Céu e o Inferno, mantido escondido por 150 anos pela adulteração, Kardec demonstra que a vida futura é regida por leis naturais válidas em todo o mundo espiritual, como a gravidade está presente como lei do mundo físico. Pois “As leis que daí decorrem são deduzidas apenas da concordância dessa imensidade de observações; esse é o caráter essencial e especial da doutrina espírita”.

Não há deliberação divina caso a caso.

Existem, em verdade, sentimentos naturais de felicidade e infelicidade, associados às escolhas conscientes dos espíritos, que são perfectíveis pelo próprio esforço.

Diferente das religiões, que consideram a degeneração e queda da alma, para a doutrina espírita as almas são simples e ignorantes em sua primeira vida humana e, sendo, perfectíveis, conquistam por seu esforço todas as faculdades, vida após vida: consciência de si, inteligência, domínio da vontade, criatividade, e, sabendo escolher, o livre-arbítrio. Só então possuirão a responsabilidade pelos atos, que é proporcional à inteligência do bem e do mal.

Não há castigo nem recompensa. Mas, inerente ao ato equivocado consciente e voluntário, o espírito sente em si o sofrimento moral ou infelicidade, que é “sempre a consequência natural da falta cometida”. E se esse ato se torna hábito, ou imperfeição, o sofrimento moral se torna constante.

Como cessar esse sofrimento?

Somente pelo arrependimento, que é um ato da vontade, e pela superação da imperfeição pelo próprio esforço do aperfeiçoamento, vida após vida, retornando ao bem. Por outro lado, cada ato do bem faz o espírito sentir em si, pela lei natural, a felicidade. Quando o ato do bem se torna constante, vira hábito, que são as virtudes, capacidades e habilidades da alma. Desde aí, a felicidade conquistada também é constante, progressiva e cumulativa.

Por que motivo, então, parte do movimento espírita vem divulgando em palestras, aulas e apostilas as ideias equivocadas de castigo divino, queda, carma e outros dogmas próprios dos sistemas equivocados das religiões ancestrais?

Um dos motivos principais foi exatamente a adulteração de O Céu e o Inferno e de A Gênese, nas quais foram implantadas falsas ideias. Sendo os primeiros a ter contato com esses textos originais escondidos por um século e meio, devemos divulgar amplamente a liberdade de pensamento e consciência, os meios de construir um mundo melhor e feliz, por meio da inevitável e natural revolução moral que já se inicia. Na obra Nem Céu nem Inferno – as leis da alma segundo o Espiritismo, os autores convocam:

“Vamos todos nós, espíritas sinceros, fazer da infâmia um bom proveito. O Céu e o Inferno permaneceu desconhecido e deturpado por 150 anos! E o que é isso diante da eternidade? Nada, absolutamente nada, um segundo seria dizer muito, aos olhos da espiritualidade. A resistência já está vencida. Qualquer empurrão terá frutos no encaminhar para o mundo novo. Avante! Coragem e determinação. Os atos equivocados foram vencidos, esmagados pela incansável verdade, que tudo aplaca pelo peso invencível do tempo. Vamos em frente!”.

Sobre Fernando Rossit

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Fernando Rossit é funcionário público e reside em São José do Rio Preto. Espírita desde 1978, atua em várias tarefas nas casas espíritas "Associação Espírita Allan Kardec" e "Centro Espírita Irmão Gerônimo".

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