segunda-feira , agosto 20 2018
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Os Centros Espíritas e a Prática Cristã: coerências e incoerências

Na atualidade, com as discussões sobre as questões de gênero, causa-nos estranheza quando lemos ou escutamos opiniões que parecem vir de algum personagem hebreu de três mil anos atrás. Por exemplo, quando dizem que a mulher foi estuprada por conta da sua saia curta ou que a criança foi molestada pelo adulto por conta de seu “jeitinho sedutor”.  Um machismo enraizado nos porões do inconsciente coletivo que deve ser olhado (trazido ao consciente) para, por fim, ser extirpado da cultura.

Nos templos religiosos que ainda não absorveram as propostas de reforma de Jesus vemos áreas reservadas aos homens e outras para mulheres, para que estas não os “distraiam”, pois precisam concentrar-se no culto.

As vestimentas femininas devem ser recatadas, de preferência com o uso de véus, saias longas e nenhum decote. Cores vibrantes e estampas muito alegres também não são bem vindas. A aparência da austeridade deve estar presente.

Encontrar isto em templos cuja filosofia se apoia principalmente no antigo testamento, parece menos estranho do que quando ficamos sabendo de Centros Espíritas que buscam regulamentar as vestes das pessoas, principalmente de mulheres.

Faz um tempo, conheci uma pessoa que, devido a uma depressão severa esteve à beira da morte por meses e que, graças a tratamento médico, psicológico e espiritual está conseguindo se reerguer, embora ainda com momentos de fragilidade psíquica.

Disse-me ela que estar no Centro Espírita tem-lhe feito enorme bem, pois se sente pertencente a um grupo familiar (esta pessoa não tem mais os pais, mora sozinha), que lá encontra reconforto, paz. Porém, há alguns dias esta mulher foi chamada para uma conversa na sala de atendimento fraterno do lugar. O assunto? Suas vestes. Não deveria usar saia curta nem bermudas quando fosse assistir palestras, pois estavam percebendo que os homens a estavam olhando demais e isso estaria atrapalhando o clima psíquico da Casa.

Quando me contou o fato estava em lágrimas, dizendo que jamais pensou em seduzir alguém com suas roupas, que ficava totalmente focada nas palavras que eram ditas pelos palestrantes e professores. Confessou se sentir ofendida, perguntando a si mesma se voltaria ao lugar, já que engordara mais de vinte kilos depois do seu processo, perdendo muitas roupas (inclusive todas as suas calças compridas), não possuindo dinheiro para novas.

Decidiu, então, enviar uma carta para a pessoa que a procurou, falando sobre como se sentia. Sua estratégia foi positiva, pois a diretora do lugar reconheceu o disparate da situação, voltando atrás no que disse, desculpando-se. Fiquei feliz com o desfecho e penso que todos aprendemos um pouco com o fato, principalmente os responsáveis pelo local. Ademais, ela continuará frequentando a Casa, o que achei ótimo, já que lá ela se sente tão bem!

O que acontece é que, quando soube do caso, me lembrei de um outro que acontecera comigo, numa Casa Espírita na qual fui palestrar. Quem me conhece sabe que gosto de acessórios grandes, brincos pendurados, colares e anéis. Embora sejam bijuterias de pouco valor, podem parecer ser mais que isso, é verdade. Porém, não vem ao caso e mesmo que fossem, estaria este assunto dentro das minhas jurisdições pessoais, pois que não agrido ninguém à minha volta com isso.

Naquela manhã de trabalho, estava eu bem vestida, com batom, brincos grandes, sapato novo e uma blusa de seda que ganhei de aniversário do meu marido. Não era traje de festa, mas eu estava vestida com esmero.

Chegando perto do espaço da palestra, no grande salão, leio em uma faixa enorme a seguinte frase: “Neste lugar só devem entrar trajes simples.”

Procurei a presidente da Casa e, com um tom alegre disse que não poderia fazer a palestra.

Ela se espantou e perguntou o que estava acontecendo.

“Não estou vestida adequadamente. A Faixa é direta: aqui só podem entrar pessoas vestidas de forma simples. Eu não estou assim. E agora?”

Claro que fiz a palestra, afinal as pessoas que estavam ali mereciam que eu passasse aquilo que estudei, porém aproveitei a situação para dialogar com a presidente sobre esta questão do destaque ao descartável.

Em todo o ambiente não se lia nenhuma frase de Jesus, mas somente aquela faixa enorme, colocando condições aos participantes, estava pendurada no local.

E se alguma senhora rica, carregando fios de ouro no pescoço passasse em frente àquela Casa, decidindo entrar, qual não seria seu espanto ao saber que ali não era bem vinda? Acaso Deus separa ricos de pobres, dando oportunidades para o conhecimento das verdades apenas aos mais humildes?

E se fosse uma prostituta, como também o foi Maria de Magdala, e quisesse entrar ali, mesmo com um shorts curto? Seria convidada a sair por desorganizar o psiquismo masculino? (Sabemos que o problema está na mente daquele que vê e não na roupa que o outro veste).

Se Francisco de Assis se preocupasse com as aparências, jamais teria banhado um leproso…

Conheço missionários incríveis que fazem trabalhos dentro dos prostíbulos de Campinas, ajudando mães e crianças em suas vidas miseráveis, levando Evangelho, comida e amor para estas almas. Estariam eles em risco, já que o lugar os convida à luxúria? Chico Xavier teria deixado de atender um caído do caminho por conta de sua aparência?

A ciência da Psicologia já explicou que aquilo que não damos conta em nós, projetamos no outro. Era disso que falava a parábola que citei acima. Os dedos em riste, apontados contra o outro, geralmente falam muito sobre seu dono…

Por fim, digo que o despretensioso texto não visa trazer à luz todas as questões envolvidas nestes casos, mas entra como um alerta simples, que considero necessário: devemos tomar cuidado com a hipocrisia nossa de cada dia, e, consequentemente, com um possível retrocesso nas práticas de religiosidade.

Se um maltrapilho nos visita podemos ajudá-lo, oferecendo-lhe trajes dignos de um ser humano: limpos e inteiros, caso ele queira (sempre respeitando o livre-arbítrio de cada um).

Por fim, resumo o texto em um convite simples: que tal uma reflexão que foi também proposta nos Evangelhos e que ainda é válida?

– Precisamos tomar cuidado para não coarmos mosquitos, engolindo camelos…

Jesus sabia das coisas!

Claudia Gelernter

Sobre Fernando Rossit

Fernando Rossit é funcionário público e reside em São José do Rio Preto. Espírita desde 1978, atua em várias tarefas nas casas espíritas "Associação Espírita Allan Kardec" e "Centro Espírita Irmão Gerônimo".

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