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Nós, LGBTQI+ espíritas, existimos, resistimos e merecemos respeito

por Franklin Felix

“Questão 202: Quando errante, que prefere o Espírito; encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?

Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.”

Allan Kardec, O Livro dos Espíritos

O Dia Internacional do Orgulho LBGTQIA+ é celebrado anualmente em 28 de junho em todo o mundo e relembra a Rebelião de Stonewall, um dia em que travestis, mulheres e homens transexuais, lésbicas, gays, bissexuais, se levantaram contra a opressão cotidianamente imposta por um Estado opressor.

Vale lembrar que, durante muito tempo, essa história contada por LGBTQI+ brancos, esconderam a identidade de uma das principais ativistas dessa revolta, a Marsha.

Marsha P. Johnson, foi uma mulher transgênero negra que trabalhou como profissional do sexo e drag queen durante boa parte de sua vida adulta. De criação cristã, religião que a acompanhou durante toda vida, ela também foi ativista em várias organizações, como a Sweet Transvestite Action Revolutionaries (STAR) [“Revolucionárias da Doce Ação Travesti”, em tradução livre], que atuava tirando transgêneres das ruas.

Stonewall não foi apenas um bar, foi um lugar de refúgio nos EUA de 1969, um espaço para que LGBTQI+ pudessem viver sua afetividade e que se transformou também em um lugar de luta como em vários outros países, onde as orientações sexuais e identidades de gênero eram consideras crime.

Quis iniciar o texto dessa semana inspirado por essa história de resistência. Engana-se quem acredita que militância e religião não se misturam. Muito pelo contrário, elas podem viver harmonicamente e uma servir de alicerce para a outra.

Senão, qual sentido teria acreditarmos em um mundo mais justo e harmônico e não nos esforçarmos para sua implementação?

Incomodados/as com a captura do movimento espírita brasileiro pelos setores mais reacionários e fundamentalistas, espíritas de todos os cantos do País e de fora dele, tem se reunido, presencialmente (antes da pandemia) ou virtualmente, para expressar seu repudio às leituras equivocadas e enviesadas que estão fazendo do legado de Allan Kardec, codificador da doutrina espírita.

Foi com esse desejo que um grupo de LGBTQI+, familiares e aliados/as espíritas, iniciaram, nos últimos dias, uma frente ampla para acolher, informar e combater manifestações odiosas que se utilize dos ensinamentos dos espíritos para oprimir, estigmatizar e excluir.

Além disso, essa frente também se integra a tantas outras iniciativas existentes e que já vem realizando um importante trabalho de educação para a diversidade, como Um gay espírita, Espíritas plurais, Homossexualidade Saudável e Diversidade espírita, e juntos/as, poderão ampliar as discussões e o alcance de suas reivindicações.

Em sua primeira reunião virtual na semana passada, constatou-se que ainda há vários desafios a serem superados, mesmo entre os chamados espíritas progressistas. Inúmeros relatos foram compartilhados sobre expulsões, afastamentos, críticas e comentários considerados LGBTfóbicos, como por exemplo, um que foi feito pelas redes sociais e que considera “mulheres apenas as que menstruam”.

Como afirma Jen Bell, “algumas mulheres não menstruam por causa de fatores como menopausa, estresse, doenças ou histerectomia. Elas podem nunca mais menstruar de novo por causa de uma série de condições médicas, ou elas podem ser transgênero ou intersexual. Ao mesmo tempo, há pessoas que menstruam que não são mulheres, como é o caso de homens trans, intersexuais, queer ou podem se identificar com o uso de termos como não-binário.”

Toda fala e comportamento LGBTfóbico devem ser radicalmente rechaçados. Não se pode considerar liberdade de opinião, ideias que machucam, ofendem, discriminam e matam.

Ou você é antirracista ou você não é! Ou você é antifascista ou você não é! O mesmo se dá com o combate a violência e ódio oriundos das orientações sexuais e/ou identidades de gênero: ou você é antilgbtfóbia ou você não é!

A religião, a manifestação da fé, de acesso ao sagrado, tem sido um espaço negado a nós LGBTQI+ por não nos enquadrarmos em algumas normas impostas pela sociedade hétero-cis-normativa.

Em determinados grupos, para poder ter aceitação e continuidade no compartilhamento do espaço religioso, muitos LGBTQI+ tendem a assumir identidades, comportamentos e posturas não condizentes com seu modo de ser, potencializando o surgimento de quadros de adoecimento mental, como transtornos psicológicos (quadros depressivos, doenças autoimunes) e até mesmo a morte (assassinatos ou suicídios).

Não há, em todos os escritos de Kardec, uma linha sequer contra LGBTQI+. Se o fazem em nome do espiritismo, fazem baseados em suas próprias convicções, suas crenças e suas leituras – enviesadas – de mundo e de sociedade. E na contramão dos ensinamentos de Cristo.

Somos espíritos imortais, surgidos a partir de um princípio inteligente. Como o espírito é um ser individualizado, vive, cada um/a, as experiências necessárias à sua evolução.

Ser LGBT+ não é resgate de vidas passadas coisíssima nenhuma. Isso é fala de alguém mal intencionado.

A doutrina espírita repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação LGBTfóbica, dentro ou fora das casas espíritas, utilizando-se de argumentos pseudo-religiosos ou mediúnicos para oprimir e violentar.

Diante de qualquer afirmação que coloque nós LGBTQI+ como desviados, doentes ou perturbados, reflita se aquele lugar merece a sua presença, assim como utilize a justiça a seu favor e denuncie.

Franklin Felix

Sobre Fernando Rossit

Fernando Rossit é funcionário público e reside em São José do Rio Preto. Espírita desde 1978, atua em várias tarefas nas casas espíritas "Associação Espírita Allan Kardec" e "Centro Espírita Irmão Gerônimo".

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