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Males Que Vêm Para O Bem

Sidney Fernandes

Ao completar doze anos de idade, Gilda notou que sua memória era superdesenvolvida. Passou a se recordar de detalhes que se passaram a partir do primeiro ano de vida e dos fatos que se sucederam até o seu momento atual. Era como se ela pudesse acessar rapidamente pastas arquivadas em seu cérebro, com datas e fotos, num processo visual de imagens em sequência.

Essa extraordinária capacidade atraiu a atenção de pesquisadores, que a diagnosticaram como portadora da Síndrome de Aurelien, documentada recentemente em artigos científicos, em que o paciente lembra especificamente de eventos passados, também chamada de hipertimesia.

Há aproximadamente apenas vinte pessoas no mundo nessa condição, que têm memória incessante, incontrolável e automática. Os mecanismos neurofisiológicos desses indivíduos, capazes de armazenar tamanha quantidade de informações, levam à conclusão de que nossos cérebros dispõem de uma capacidade de registro muito maior do que imaginávamos.

Outro aspecto da síndrome é a ressignificação do que imaginávamos ser uma memória saudável, pois não se trata apenas de lembrar das informações que são importantes, mas também da quase total impossibilidade de esquecer aquilo que não é importante ou prejudicial.

A Doutrina Espírita nos ensina, referindo-se a vidas anteriores, que o esquecimento contribui para a reconciliação com desafetos e poupa nossa lembrança de fatos desagradáveis, que poderiam dificultar a existência atual. A mesma regra é válida para o presente, pois a nossa saúde psíquica depende de não nos lembrarmos de fatos desagradáveis, que precisam ser esquecidos.

O caso de Gilda é único, pois além de se lembrar de tudo da vida atual, até os sete anos de idade lembrava-se de muitos fatos de sua vida anterior. Seu diagnóstico ultrapassou o da síndrome da hipertimesia e avançou para recordações de encarnação passada, que foram pesquisadas e devidamente comprovadas.

Com o limiar da puberdade, sumiram as lembranças da existência passada e Gilda passou a administrar melhor as lembranças da vida presente, que passaram a acontecer de forma menos detalhada e precisa.

Como explicar o caso de Gilda?

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Diz Emmanuel que não é fácil rasgar os véus que ensombram a mente humana.

Nossas interpretações dificilmente se aproximam dos métodos persuasivos do plano espiritual, que dispõe de formas de convencimento que não concebemos. Somente quando chegarmos ao cume evolutivo é que os véus pesados sobre o entendimento começarão a ser retirados.

Por analogia, podemos imaginar que as lembranças de Gilda tenham sido planejadas por técnicos de instituto de reencarnação, a fim de auxiliá-la a superar crônicas distorções de comportamento, que vinham se repetindo no transcorrer de várias existências.

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O comprometimento com o mal poderá se entranhar de tal maneira em nosso espírito, em forma de tendências, que elas precisarão ser contidas e eliminadas. Mentores espirituais, geralmente a nosso pedido, providenciam medidas de alerta e de contenção, com o intuito de inibir atitudes negativas que, se fossem deixadas ao nosso arbítrio, iriam certamente voltar a acontecer.

Espírito agressivo será contido pela fragilidade do corpo; candidato ao alcoolismo será sofreado por fígado sensível; maledicente inveterado será inibido por limitações da fala; suicida contumaz será reprimido pela tetraplegia; escritor que incitou ao mal será refreado por mente obtusa; e assim por diante.

Limitações, contenções e restrições não são bem entendidas, quando estamos imersos no esquecimento reencarnatório. Se tivéssemos noção exata da extensão dos males de que somos capazes de praticar, não nos rebelaríamos e agradeceríamos aos espíritos superiores tais inibições.

Se o candidato à reincidência fosse imbuído de resignação e de reflexão, entenderia que o sofrimento é mal necessário e originado de causas justas. Assim pensando, nunca se atreveria a repeti-las.

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Há males de que não se deve buscar a cura, porque só eles nos protegem contra males mais graves.

Marcel Proust

Reminiscências do passado nem sempre contribuem adequadamente ao progresso do espírito. O esquecimento poupa o homem de recordações comprometedoras e indesejáveis, em relação às quais ele ainda não está devidamente preparado.

No entanto, por mérito e necessidade do paciente, pode ser que ocorra o que poderíamos de chamar de exceção à regra do esquecimento. Essa relembrança poderá acontecer espontaneamente ou por intermédio de profissional habilitado em psicoterapia, no processo denominado TVP – Terapia de vivências passadas.

Com Gilda aconteceu de maneira natural, para que ela fosse, temporariamente, com suas reminiscências, alertada e contida nas más tendências que trazia do pretérito.

O que, por algum tempo, foi considerado por ela como lembranças incômodas, auxiliaram-na à reflexão e a conduzir sua vida de forma equilibrada. Foram males necessários que a protegeram de males mais graves.

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Fiquemos com Richard Simonetti:

O tempo é o grande remédio para esses infelizes que podem estagiar durante séculos em tal situação, até que superem a tendência de fuga, compenetrando-se de que é preciso enfrentar os problemas com confiança em Deus e fé no futuro.

A educação, em todas as instâncias, na Terra ou no além, para encarnados ou desencarnados, será decisiva para a ação de generosos mentores espirituais…

 Doenças, dores e limitações físicas representam os elementos de contenção e eliminação das tendências inferiores que desenvolvemos em nossa personalidade, em razão de nossa própria imaturidade.

 

Fonte: Hipertimesia, Diego Marques Moreira; Vinha de Luz, Emmanuel; O grande desafio, Bem aventurados os aflitos, Quem tem medo da obsessão?, Espiritismo – tudo o que você precisa saber, Uma receita de vida e Viver em plenitude, Richard Simonetti.

Sobre Sidney Fernandes

Sidney Fernandes (1948@uol.com.br) nasceu em Bauru, em 1948. Gerente do Banco do Brasil e Empresário, hoje está aposentado e se dedica integralmente à veiculação do Espiritismo. Participou ativamente da Mocidade Espírita até integrar-se ao Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru (SP). Escritor e orador profere palestras em várias cidades brasileiras. Veja página deste Autor

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Um comentário

  1. Sem o bendito esquecimento reencarnatório a vida seria um caos, com os membros da mesma família mutuamente se acusando de seus crimes, desde o berço, onde bebês, ao invés de amados, seriam odiados se os seus pais se lembrassem de suas atrocidades de outras vidas. Deus é bom e justo e o esquecimento das encarnações pretéritas é bênção para que todos consigam renascer em paz.