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Espíritas ou Simpatizantes? – por Sidney Fernandes

A cena da telenovela chamou minha atenção. Inicialmente, pelo talento das extraordinárias atrizes Irene Ravache e Júlia Lemmertz, depois, pelo conteúdo do diálogo entre elas.

— Meu Deus — pensei —, elas estão falando abertamente de reencarnação! E também sobre o planejamento espiritual, antes da atual vida, da filha de uma das personagens! Será que isso é comum nas novelas de hoje?

Jamais, em meus áureos tempos de juventude, imaginei que ouviria esse tipo de abordagem, de temática eminentemente espírita, em pleno horário nobre televisivo.

Resolvi pesquisar sobre o assunto e descobri que cerca de treze novelas, às quais nunca assisti, ou dei atenção, já falaram de vários assuntos chamados pela mídia de místicos.

Novelas que, desde 1989, já versaram sobre os temas: vidas passadas (Anjo de Mim – 1996), obsessão (A Viagem – 1994 e Amor à Vida – 2014), proteção espiritual (Páginas da Vida – 2006 e Escrito nas Estrelas – 2010), aparições espirituais (O Astro – 1977/78 e 2011(remake)), reencarnação (Alma Gêmea – 2006 e Além do Tempo – 2019) e manifestação mediúnica (Alto Astral – 2014), só para citar as mais conhecidas.

A que se deve o grande interesse dos brasileiros por esses temas? Enquanto os espíritas, segundo o IBGE, não chegam à casa dos cinco por cento da população brasileira, calcula-se que sessenta por cento, ou mais, aceitam a reencarnação. A comunicabilidade com os espíritos e a crença na imortalidade da alma têm percentuais de aceitação ainda maiores.

Naturalmente, não significa que todos sejam espíritas. Numa análise superficial, no entanto, deduz-se que existem muito mais pessoas que aceitam a imortalidade da alma, a comunicabilidade com os mortos e a reencarnação do que a quantidade de espíritas estatisticamente declarados e catalogados.

É bem verdade que a aceitação das teses espiritualista, reencarnacionista e da mediunidade não torna o indivíduo espírita, automaticamente. Essas ideias não são exclusivas do Espiritismo.

Atrevo-me, no entanto, a exemplo do que fez Allan Kardec em sua época, quanto tentou aferir a quantidade de adeptos da Doutrina Espírita, a afirmar que existe uma grande quantidade de simpatizantes, que aceitam os princípios e ideias espíritas, mas não querem ser considerados efetivamente espíritas.

De toda forma, se, por um lado, não podemos cometer a pretensa leviandade de considerar todos os noveleiros como espíritas simpatizantes, por outro, estaríamos cometendo grande engano em aceitar o número oficialmente registrado de espíritas.

Afinal de contas, o Espiritismo — parafraseando Allan Kardec —, é uma questão de fé e de crença, e não de rótulo ou grupamento. Sendo assim, quem aceita a existência e manifestação dos espíritos e admite a possibilidade da multiplicidade de vidas, é, no mínimo, espírita de fato, pois tais princípios não são esposados pelas religiões predominantes no Brasil.

É bem verdade que o brasileiro costuma, em matéria de religião, colocar os pés em duas canoas. Ou seja, há muitos irmãos católicos que vão ao centro espírita submeter-se à aplicação de passes, muitos evangélicos que frequentam terreiros de umbanda e muitos espíritas que se persignam, isto é, fazem o sinal da cruz diante das igrejas, e as frequentam.

Nada contra essa miscelânea de crenças, pois quem sofre, diria meu pai, sabe onde dói o calo, e deve procurar o consolo onde puder.

Quem, no entanto, partilhar as convicções dos espíritas a respeito da existência e da manifestação dos espíritos, da reencarnação e das consequências morais daí decorrentes, não mais poderá se intitular como seguidor de outra religião e estará dando seguro passo no sentido de se tornar um espírita autêntico.

As convicções, sem dúvida, são importantes. Todavia, a qualificação de espírita verdadeiro e sincero pressupõe ser tocado nas fibras do coração com a coragem de se tornar um cristão autêntico e da inabalável determinação de vencer seus defeitos de caráter e maus pendores.

Fiquemos com as palavras de Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo:

— Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.

Já ocorreu em mim a transformação para o homem novo preconizado por Paulo, o apóstolo? Estou assestando todas as minhas intenções para a vitória sobre as minhas más tendências? Se é dessa forma, estarei deixando de ser apenas um espectador de novelas para tornar-me efetivamente um homem de bem, um verdadeiro cristão.

Sobre Sidney Fernandes

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Sidney Fernandes (1948@uol.com.br) nasceu em Bauru, em 1948. Gerente do Banco do Brasil e Empresário, hoje está aposentado e se dedica integralmente à veiculação do Espiritismo. Participou ativamente da Mocidade Espírita até integrar-se ao Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru (SP). Escritor e orador profere palestras em várias cidades brasileiras. Veja página deste Autor

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