segunda-feira , outubro 16 2017
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E.Q.M. de Um Suicida (Experiência de Quase Morte)

A dor, o terror e o choque daquela grave noite de outubro de 1960 ainda me perseguem passados 38 anos. Mais difícil de explicar é a consciência da ilimitada piedade e do perdão de Deus que surgiu após a minha tentativa de suicídio e que permanece até hoje. O que estou prestes a narrar não se trata em absoluto de alucinação ou auto engano. Eu relato o que aconteceu e desejo com isto poder ajudar alguém, em algum lugar, a reconhecer e acolher a presença de Deus em sua vida em um momento quando a morte possa parecer a única saída. Se alguém me dissesse, 38 anos antes, que eu iria percorrer o perigoso caminho da perda de fé até o fosso do inferno, eu teria rido. Eis a história.

Em 1948, eu estava recém-casado com uma bela mulher de nome Pat. Ela era uma garota popular e eu me sentia um privilegiado por tê-la conquistado. Eu estava completamente envolvido em meu trabalho como contador e ocupado com o lado positivo da vida que nem pode notar a aproximação de uma tormenta. Nos anos seguintes, todas as minhas esperanças, sonhos e brilhantes perspectivas erodiram-se. Eu que sempre fora um moderado e ocasional bebedor passei a beber mais e bebidas mais fortes. Antes de dar-me conta disto, já tinha ultrapassado o limiar tornando-me um alcoólatra. O limiar era o inferno da perda de fé, temores, impotência e auto compaixão.

Passados apenas sete meses de um casamento que eu julgava perfeito, descobri que minha mulher me traía, o que me levou ao abandono e ao álcool. Eu era, também, culpado pelo naufrágio do nosso casamento. Toda vez que um novo caso amoroso vinha à tona — fosse um pequeno caso ou um romance de um ano — eu lhe dizia muitas coisas ofensivas e fazia todo possível para que ela se sentisse bastante culpada. Ela continuava mesmo assim, e havia saído para um encontro quando, por fim, tomei a decisão de fazer algo frente a essa situação desesperadora e degradante.

Com Pat ausente — provavelmente a noite inteira—, levei nossos dois meninos e nossa filhinha para a cama e ouvi as suas orações. Nessa altura, as orações pareciam-me, de algum modo, vazias e sem sentido. Eu não encontrava segurança ou esperança nas preces. Tornei-me um devoto ateísta. Quando as crianças já dormiam, reuni todos os apetrechos para o que seria a minha “fuga final”: dois frascos de pílulas para dormir e uma medicação prescrita, tranquilizantes que eu acumulara para o futuro, retirados do armário de medicamentos. A isto, juntei três garrafas de bebida. Pensava ter tudo o que precisava para a minha grande fuga. Lembrava que o médico havia dito para não ingerir álcool com estas pílulas pois isso poderia matar-me. Naquele momento, não tinha desejo de morrer, mas ainda assim a conversa   semeou   um pensamento suicida.

Eu escrevi uma mensagem de suicida e agitei cinco frascos de tranquilizantes. Misturei a isto as bebidas e brindei à cadeira vazia de minha mulher. “ Isto é para um nada, torne-se isto o nada.” As cápsulas desceram facilmente e o falso calor da bebida invadiu-me. “On my way”* , pensei, e sem volta!

A minha segunda bebida terminou com os tranquilizantes e as pontas dos dedos das mãos e dos pés começaram a formigar. Bem, talvez as pílulas não façam efeito depois de tudo ? disse para mim. Eu não me sentia bêbado, apenas um pouco entorpecido e tonto. Eu tinha um perturbante temor de ser interrompido em minha tentativa, tal como acontecera com tudo mais que eu considerara importante; engoli, então, um punhado de pílulas para dormir. A minha mão ainda estava firme enquanto servia-me do resto do bourbon. O que posso fazer, o que farei se isto não funcionar? Senti uma sensação de queima formando-se em meu estômago.

Meu hábito alcoólico tornara-se tão intenso que um par de drinques ao almoço, um trago   no caminho de casa, dois-quintos de vodka ou bourbon ao terminar a noite eram completamente insuficientes para entorpecer a minha dor e frustração. Eu não quero acordar com apenas mais uma ressaca e todos os problemas continuando a corroer-me. Eu não quero acordar nunca mais. Eu terminei com toda a bebida e as pílulas e comecei a ver algo como uma nuvem escura vindo em minha direção. A nuvem atravessou o teto da cozinha e chegou, envolvendo-me.

Comecei a sentir que me movia através de um túnel a uma alta velocidade. Eu vi uma luz no fim do túnel e pensei se esse seria o lugar para onde estaria indo. Eu não tinha ideia se estava vivo ou morto nessa altura, mas lembro claramente de ter olhado para trás e ter-me visto desmaiado no chão da cozinha. Eu estava lá completamente inconsciente dessa outra parte de mim que ia em direção a alguma coisa. É isto a morte? ? indaguei-me. “Não!”, foi a resposta vinda de algum lugar.

Fiquei surpreso, então, ao ver um ser de extraordinária beleza, irradiando um amor supremo, de grande compaixão e calor. Era um ser envolto em uma bela e brilhante luz branca, com raios prateados emanando do seu centro. Eu hesitava em dizer alguma coisa, mas logo percebi que meus pensamentos podiam ser lidos por esse ser de incrível luz. “Não!”, repetiu ele. “A morte não se parece a isto. Venha, vou mostrar-lhe.” Recordo ter flutuado com ele sobre uma espécie de fosso onde se via uma paisagem deprimente, desprovida de beleza, desprovida de vida, onde as pessoas se arrastavam, cabisbaixas, com os ombros dobrados para a frente de uma maneira depressiva e resignada. Elas mantinham as cabeças baixas olhando para os pés e vagavam sem rumo, tropeçando, às vezes, umas nas outras mas continuando a andar. Pensei, terrificado, se seria lançado a esse mundo de almas confusas e perdidas. A voz, entretanto, pareceu ter compreendido o meu terror e aliviou-o com as seguintes palavras: “ Este é um Inferno de sua própria criação. Você teria finalmente de retornar à terra e experimentar, de novo, uma outra vida, enfrentando as mesmas dificuldades que enfrentou neste período. Até lá, você permanecerá junto a essas almas perdidas e confusas. O suicídio não é uma saída.”

Foi-me mostrada uma visão panorâmica da minha vida. Os últimos cinco anos, destruídos pelo abuso de álcool, foram os mais dolorosos, as mais dolorosas lembranças que eu jamais ousaria imaginar. Eu vi uma imagem do efeito que o álcool havia causado à vida das minhas crianças e o efeito que iria causar no futuro de cada um deles. Eu vi a dor que as minhas crianças iriam sentir com a minha perda e da família. Eu vi que sua mãe não iria cuidar bem deles e que, por fim, eles iriam parar em um lar adotivo. Também me foi mostrada uma prévia de como o meu alcoolismo iria influenciar a vida de meus filhos se continuasse a beber com a mesma intensidade e permanecesse dentro daquela relação familiar. Eu vi que todas as três crianças — dois meninos e uma menina — seguiriam o meu pobre exemplo e cada um iria usar a bebida para escapar do estresse da vida quotidiana até que se tornassem, por sua vez, também alcoólatras. A visão da minha preciosa filha crescendo e casando-se com um indivíduo alcoólatra, que por fim iria bater nela e forçar relações incestuosas com suas quatro filhas era mais do que eu podia suportar. Foi como uma bofetada em meu rosto. Uma monstruosa visão da realidade.

Eu vi que se adequasse meus atos e começasse a agir como um pai responsável e modelo de referência, as três crianças tornar-se-iam felizes e produtivas. Isso não significa que estariam livres das lutas diárias, mas sim que teriam a possibilidade de construir seus próprios caminhos, livres de qualquer dependência. Eu vi como o meu filho mais velho tornar-se-ia uma importante e influente pessoa em seu tempo se eu permanecesse por perto e fosse um verdadeiro pai. Eu vi o lado reverso desse futuro se eu continuasse a ser o pai fraco e alcoólatra: ele finalmente iria envolver-se com drogas e terminar em uma prisão por crimes cometidos ao tentar conseguir dinheiro para a compra de entorpecentes. Foi aterrorizante, e decidi imediatamente   que não era isso o que desejava para meus filhos, ou para mim. Foi-me mostrado que se continuasse como um bêbado patético, uma nulidade, não teria condições de escapar. Tendo de reviver todas as provações e traumas que levaram-me ao ponto do suicídio, ter de enfrentar tudo isso novamente em uma outra vida era simplesmente muito mais aterrorizante do que eu gostaria de admitir. Eu chorei.

O ser luminoso pareceu compreender que eu estava cheio de remorsos, compaixão e amor. Com voz severa mas, ainda assim, em tom paternal, ele disse: “Você não pode fazer o que quiser com a sua vida. Você criou a si mesmo, deu a si mesmo vida? Não. Da mesma forma, não poderá escolher a morte.” Eu não podia falar, eu não podia pensar, eu chorei ainda mais. Essa presença, na forma de voz, deveria ser o Espírito Santo que me foi enviado, pensei. A voz, agora mais suave, continuou: “ Eu não terminei com você, o seu trabalho não está concluído, volte e faça o que deve ser feito.”

A primeira coisa que vi ao acordar foi o alívio transbordando da face de minha filha. Nancy tinha acordado durante a noite e lutara incessantemente para manter acesa a faísca de vida dentro de mim. “Oh! Papai”, disse ela, “ Eu tive tanto medo de perdermos você. Você estava tão frio e eu nem podia ouvir o bater do seu coração.”

Na cozinha, a minha mulher estava preparando o almoço. “ Venham, crianças, e sirvam-se”, disse ela , “ e você pode servir-se também se conseguir arrastar a sua figura bêbada até a mesa “, acrescentou sarcasticamente. Eu sentia-me completamente exausto e faminto mas não de ressaca. Por alguma estranha razão, eu não tinha a dor aguda nos intestinos que sentira na noite anterior depois da overdose de pílulas. Melhor ainda: tinha comigo o amor, a paz e o carinho interior vindos da noite passada.

Seria agradável dizer que a vida depois disso tornou-se perfeita mas seria uma mentira. A separação e o divórcio foram de doer o coração embora eu tenha ficado com a guarda das crianças. Eu queria as crianças e elas me queriam e o namorado de minha mulher não as queria. Eu deixei a minha profissão de contador e prossegui para tornar-me professor em uma faculdade local e foi uma passagem dura.

Usei todas as minhas economias e os fundos de aposentadoria para pagar as contas e manter a família durante o período de um mês de busca de emprego. Isso custou-me qualquer garantia que poderia ter tido para desenvolver novas capacidades profissionais, algo, por vezes, desafiante e assustador. Ainda assim a paz e o conforto que senti, quando estava à beira do abismo do inferno, nunca deixou-me nem permitiu-me perder a minha renovada fé e confiança. Alguns amigos não compreendem porque não me tornei amargo; a melhor resposta está no Salmo 23. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo; a Tua vara e o Teu cajado me consolam. “

Desde essa experiência, sinto que não temo mais a morte, que possuo uma perspectiva mais espiritual e que assumo a responsabilidade de criar meus filhos muito mais seriamente. Eu estou lá para eles e sinto orgulho ao dizer que suas vidas estão se desenvolvendo muito melhor agora depois que tornei-me o pai que sempre deveria ter sido. Eu encontrei e casei-me com uma bela mulher, também bela em seu interior, e que me dá força e a coragem para enfrentar as provas e atribulações da vida. Eu nunca esquecerei a minha experiência às portas do inferno e o que ela me ensinou.

A Experiência de Quase Morte negativa não é negativa quando o bom surge dela. Eu sou agora um conselheiro pastoral e, em paralelo, faço contabilidade para pequenos negócios. Os meus filhos são independentes e tem vidas felizes, ativas e produtivas. Eu me sinto em paz.

Sobre Fernando Rossit

Fernando Rossit é funcionário público e reside em São José do Rio Preto. Espírita desde 1978, atua em várias tarefas nas casas espíritas "Associação Espírita Allan Kardec" e "Centro Espírita Irmão Gerônimo". (fmrossit@yahoo.com.br)

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