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É Possível Comprar o Céu? – Sidney Fernandes

Podemos negociar com a divindade? O futuro além desta vida depende de fatores materiais? E o mérito, como fica?

É muito conhecida a reação do indivíduo que, deitado numa rede, ao sentir repentina vontade de trabalhar, ficou bem quietinho, até a vontade passar. Se fôssemos eleger um hino à indolência, talvez essa fosse a imagem perfeita para caracterizar o ânimo do preguiçoso.

Interessante observar o comportamento de determinadas pessoas, que agem e pensam de acordo com esse hino e depois se ressentem de suas precárias condições de vida. Costumam chamar de sorte o sucesso do esforçado e dedicado.

A questão do mérito é abordada pela sociedade humana, desde que foi constituída. Existem os que, cedo, constatam que sem ele não há como sobreviver. Batalham, esforçam-se e fazem por merecer vida digna. Há, no entanto, os que se consideram espertos e querem os mesmos direitos dos que trabalham, fazendo nada.

Estes, em todos os setores de relação humana, procuram atalhos com o intuito de ludibriar a natureza e os pares da sociedade em que vivem.  Vão mais longe. No campo da religião, por exemplo, alimentam a absurda pretensão de enganar o criador, transgredir suas leis e ainda se sair bem, quando partem desta para outra vida.

Como ainda estamos longe da perfeição, semelhantes intenções malignas, tão comuns e corriqueiras em nosso mundo, representariam monstruosas exceções em planetas mais adiantados. Tais quais, por exemplo, as vendas de indulgências por pessoas inescrupulosas e destituídas de princípios religiosos autênticos.

Martinho Lutero, monge alemão, revoltou-se e deflagrou a reforma protestante em 1517, assim como os reformistas John Wycliffe, João Huss e Jerônimo de Praga, que também se insurgiram contra os excessos, a cobiça e a vilania dos equivocados, que pretendiam conspurcar o poder religioso da época.

O auge dos escândalos das indulgências ocorreu no século XVI, com o lançamento de uma política aberta de venda de certificados absolvitórios capazes de extinguir qualquer pecado.

Surpreendi-me, caro leitor, ao encontrar uma pintura datada de 1530, denominada A venda de indulgências, de Augsburg.

Embora saibamos dos desmandos do passado, em que os mais elementares princípios de justiça, perante os homens e perante as leis divinas, hajam sido conspurcados pelo egoísmo humano, as verdades, quando são apresentadas cruamente, ainda causam perplexidade.

Um balcão de negócios, tendo, de um lado, dois comerciantes: um recolhendo o dinheiro — que se poderia chamar de vendedor —, e o outro, fornecendo o documento de quitação dos pecados. À frente, longa fila de pecadores, cristãos não praticantes da fé, interessados em diminuir ou extinguir penas previstas para os erros cometidos.

As indulgências eram verdadeiros passaportes para o céu. Eram vendidas a céu aberto, por sacerdotes, profissionais, mascates, chamados de perdoadores(quaestores), portadores de cartas que teriam o condão de extinguir qualquer tipo de pecado. Não existia crime, nem o mais cruel, que não pudesse ser remido, mediante o pagamento de vasta soma de dinheiro.

Tornou-se popular a expressão que libertava as pessoas das penas eternas:

 No momento em que uma moeda tilinta no fundo do gazofilácio, uma alma escapa do purgatório.

  Cristãos autênticos, que se esforçavam para se manter distantes do pecado, ficavam desconcertados com a subversão de interesses, ao presenciar o comércio clandestino de uma mercadoria denominada excedentes de mérito.

Acreditava-se que essa matéria-prima se originava de Jesus, de Maria e de muitos outros santos, e era comercializada por aqueles que se consideravam seus depositários, os detentores dos poderes eclesiásticos.

No meu livro Luzes em Paris, cito João Huss, John Wycliffe e Jerônimo de Praga, esses importantes reformistas que se insurgiram contra a ambição e a ganância dos que deveriam dar o exemplo de dignidade e não representavam com fidelidade os postulados da Igreja Romana.

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A princípio, as indulgências tinham objetivo nobre. Religiosos bem-intencionados, sensibilizados pela sincera intenção de pecadores arrependidos que queriam se redimir de seus erros, davam-lhes nova oportunidade de atenuarem suas faltas, por intermédio de doações, encaminhadas a hospitais, asilos, orfanatos, pobres miseráveis e viúvas desamparadas. Com efeito, baseavam-se na frase de Pedro: o amor cobrirá a multidão de pecados, contida em sua primeira epístola, para tentar efetivamente ajudar os crentes 

Com o tempo, cresceu o olho dos religiosos, diante dos altos valores que circulavam por suas mãos e que passaram a guardar para a igreja e para si próprios.

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É possível comprar o céu?

Pecadores e pretensos religiosos do passado pensavam que sim. Infelizmente, muita gente ainda hoje acha que pode comercializar com a divindade. Contratos de fé, vassouras ungidas, terreno no céu, contrato de compra com Deus, autenticado com o sangue do cordeiro na forma de uma cruz…  Estes são alguns tristes exemplos encontrados em rápida busca pela internet, atestando que nos tempos atuais ainda existe muita gente procurando atalhos para o céu.

Os que defendem esse tipo de prática argumentam que no livro Atos, 16:30-31, há a seguinte promessa:

— Que é necessário que eu faça para me salvar?

— Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.

Nesse caso, segundo eles, bastaria ter fé e os objetos ou documentos vendidos aos fiéis seriam suficientes para salvar a alma dos pecadores.

Esquecem-se de uma outra passagem, contida na epístola de Tiago, 2:17:

Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.

Na Doutrina Espírita não se encontra a salvação com contratos ou terrenos no céu. Dizem a lógica e também a sociedade humana, esta desde que tomou consciência do mérito, que todo e qualquer objetivo somente poderá ser alcançado se houver esforço, dedicação e muito trabalho. Não há atalhos ou quebra-galhos. Tudo, para ser alcançado, exige o preço a ser pago.

Jesus salva — segundo a Doutrina Espírita — quando superamos a preguiça, quando abraçamos o trabalho e a determinação para superar nossos defeitos e desenvolver a nossa transformação interior.

O autêntico espírita aceita Jesus e a sua salvação, mas sabe que precisará batalhar, merecer, amar e praticar a caridade. Ninguém — nem mesmo o mais injusto dos homens — premia quem não merece. Assim também é a vida, sob o olhar de Deus. Somente se salva quem tem o mérito do esforço.

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A qual grupo você pertence?

Ao time da indolência? Dos espertos? Daqueles que ainda estão querendo comprar indulgências ou pretensos salvo-condutos? Ou ainda está atrás de uma chave mágica que proporcione o sucesso e a salvação? Ou do atalho para o céu?

Nesse caso, estas palavras não lhe servem e muito menos todo o manancial do Cristo e da Doutrina Espírita à disposição. Infelizmente você ainda está arriscado a cair em mãos inescrupulosas e estelionatárias, que lhe prometerão o céu em troca de alguns trocados e lhe provocarão decepção ao descobrir que foi enganado, ao conhecer a vida verdadeira.

Mas, se você, caro leitor, está disposto a suar, trabalhar, estudar, concentrar suas forças e energias para se tornar melhor… Se você está disposto a promover a sua transformação moral e a minimizar suas más tendências… E toda noite faz sua reflexão para identificar erros cometidos durante o dia a fim de evitá-los, no dia seguinte…

Então você já pode se considerar um espírito a caminho do bem, à procura do verdadeiro mérito, que lhe abrirá ainda mais as portas desta existência e da espiritualidade maior.

Sidney Fernandes

Sobre Sidney Fernandes

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Sidney Fernandes (1948@uol.com.br) nasceu em Bauru, em 1948. Gerente do Banco do Brasil e Empresário, hoje está aposentado e se dedica integralmente à veiculação do Espiritismo. Participou ativamente da Mocidade Espírita até integrar-se ao Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru (SP). Escritor e orador profere palestras em várias cidades brasileiras. Veja página deste Autor

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