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Desejável Paixão

                                      Richard Simonetti

                                      richardsimonetti@uol.com.br

         O senhor Felício esteve num programa de televisão em que eram entrevistadas pessoas idosas, convidadas a falar sobre a velhice.

         Tinha oitenta e cinco anos. Aparentava sessenta, espirituoso, bem disposto, dono de uma incrível jovialidade.

         — Nunca me senti velho — dizia.

         — E o corpo? — perguntou o entrevistador.

         — Já não tem a mesma vitalidade; não raro, há grilos de saúde, o que é natural. Trata-se de uma máquina.

         — Vai se desgastando…

         — Exatamente, mas o motor está ótimo, nos dois sentidos: bombeia, incansável e eficientemente o sangue, levando o oxigênio a todas as províncias do corpo sem ratear, e me mantém permanentemente enamorado de encantadora donzela.

         — O senhor, na sua idade, apaixonado por uma jovem?! — admirou-se o entrevistador.

         — Sim, meu filho. Apaixonadíssimo!

         — E podemos conhecer essa pessoa maravilhosa, que faz seu encanto?

         — Claro, claro, mesmo porque todos devem fazer o mesmo, em favor de uma existência feliz.

         Sorridente, o senhor Felício explicou:

         — Sou apaixonado pela vida. Adoro viver. Intimamente sinto-me eterno jovem. Nunca experimentei o peso dos anos ou a angústia de envelhecer. Cada dia é uma aventura que aproveito integralmente.

         — Qual a fórmula mágica para essa perene juventude emocional, essa esfuziante alegria? Nossos telespectadores vão adorar sua orientação.

         — Elementar, meu filho. Toda manhã, ao fazer a barba, converso comigo mesmo ao espelho e afirmo: “Felício, você tem duas alternativas neste dia: ser feliz ou infeliz. A escolha é sua”.

         — Escolhe ser feliz?

         — Evidente! Seria um tolo se não o fizesse. Afinal, a opção é sempre nossa.

         E ante o maravilhado entrevistador:

         — Simples, não?

                                                ***

                   O Senhor Felício é dessas raras pessoas conscientes de que a felicidade não é uma estação na viagem da existência humana. Felicidade é uma maneira de viajar.

         E não está subordinada à satisfação de nossos desejos, diante da Vida, mas ao desejo de descobrir o que ela espera de nós. A propósito desse tema tão caro a todos nós, alguns pensamentos interessantes:

 

         Os homens que procuram a felicidade são como bêbedos que não conseguem encontrar a própria casa, mas sabem que tem uma. (Voltaire)

         Dá-se com a felicidade o que se dá com os relógios: os menos complicados são os que enguiçam menos. (Chamfort)

         Encher a hora – isso é que é a felicidade. (Emerson)

         Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente. (Érico Veríssimo)

        

         Por último, o notável poema, Velho Tema, de Vicente de Carvalho, que nos oferece a mais perfeita explicação sobre a escassez de felicidade entre os homens:

 

         Só a leve esperança, em toda a vida,

         Disfarça a pena de viver, mais nada;

         Nem é mais a existência, resumida,

         Que uma grande esperança malograda.

 

         O eterno sonho da alma desterrada,

         Sonho que a traz ansiosa e embevecida,

         É uma hora feliz, sempre adiada

         E que não chega nunca em toda a vida.

 

         Essa felicidade que supomos,

         Árvore milagrosa que sonhamos

         Toda arreada de dourados pomos,

 

         Existe, sim; mas nós não a alcançamos,

         Porque está sempre apenas onde a pomos

         E nunca a pomos onde nós estamos

Sobre Richard Simonetti

Richard Simonetti

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