Home / Espiritismo / Comportamento / Cuidado com a Fé Cega

Cuidado com a Fé Cega

É in­te­res­san­te ob­ser­var que o Dia Mun­di­al da Re­li­gi­ão, que se co­me­mo­ra em 21 de ja­nei­ro, foi cri­a­do com o ob­je­ti­vo de se pen­sar a har­mo­nia en­tre as re­li­gi­ões mun­di­ais, com­ba­ter a dis­cri­mi­na­ção e a in­to­le­rân­cia re­li­gi­o­sa – aque­la que é ge­ra­da pe­la fé ce­ga.

Is­so me faz lem­brar de um ca­so que acon­te­ceu lá pras ban­das de Mi­nas, jus­to so­bre a tal da fé ce­ga e da en­ga­na­ção. É a his­tó­ria do Fran­cis­co Pos­si­dô­nio, que na in­fân­cia cha­má­va­mos de Chi­co Pre­to. Ga­ro­to ale­gre, bom de bo­la e brin­ca­lhão de mar­ca mai­or, já cres­ci­do re­sol­veu fun­dar, num rin­cão da pe­ri­fe­ria da ci­da­de, uma igre­ja no­va. Ten­tou de to­da for­ma ar­ran­jar um só­cio.

– Eu ga­ran­to que a coi­sa dá di­nhei­ro fá­cil, mas mui­to di­nhei­ro mes­mo!

Chi­co Pre­to foi em fren­te. In­ven­tou a fi­gu­ra de uma tal San­ta Co­ro­sa, que ele di­zia ser a ver­da­dei­ra in­ter­ces­so­ra en­tre os ho­mens e Je­sus. Sem ela, ne­nhu­ma pre­ce che­ga­va até o Se­nhor. Ten­do apa­re­ci­do pa­ra ele nu­ma noi­te, ela deu-lhe ins­tru­ções de­ta­lha­das pa­ra cri­ar a Igre­ja do Mi­la­gre Su­pre­mo.

Bem de­pres­sa a igre­ja já con­ta­va com mui­tos cren­tes. Chi­co Pre­to co­me­çou a ga­nhar di­nhei­ro. A San­ta Co­ro­sa es­ta­va fa­zen­do mui­tos mi­la­gres e sua fa­ma co­me­çou a es­pa­lhar-se. Ca­ra­va­nas de to­da par­te es­ta­vam che­gan­do.

Ten­do fei­to tu­do so­zi­nho, Chi­co cha­ma­va os ami­gos de bo­bos e di­zia que ago­ra não lhe in­te­res­sa­va mais só­cio. Sua mãe en­trou pa­ra a igre­ja, mas os fa­mi­lia­res mais lú­ci­dos vi­am que o pró­prio Chi­co Pre­to não acre­di­ta­va na­qui­lo. Era tu­do um te­a­tro. O no­me da San­ta Co­ro­sa ti­nha nas­ci­do de uma brin­ca­dei­ra que Chi­co re­sol­ve­ra fa­zer com o no­me de um pri­mo, ape­li­da­do de Co­ró, que se mu­da­ra pa­ra os Es­ta­dos Uni­dos. Pro­me­teu, nu­ma car­ta, que ia trans­for­má-lo em san­ta de sua igre­ja, a San­ta Co­ro­sa. E foi o que fez.

Chi­co Pre­to se di­zia tam­bém vi­den­te. In­ven­ta­va no­mes e his­tó­ri­as que con­ta­va pe­lo rá­dio, lan­çan­do-se con­tra exus, ca­bo­clos, es­pí­ri­tos do mal, de­mô­ni­os e tan­tas ou­tras for­ças das tre­vas. Sua voz gri­ta­da, cheia de fin­gi­da emo­ção, ti­nha mui­to efei­to so­bre a al­ma sim­pló­ria do po­vão. Atra­vés de su­as vi­dên­cias, ele des­co­bria a cau­sa da in­fe­li­ci­da­de de to­da gen­te. Era sem­pre obra ma­lig­na de ma­cum­ba: um des­pa­cho, uma coi­sa fei­ta, uma amar­ra­ção, um fei­ti­ço ou bru­xa­ria, fei­tos em al­gu­ma en­cru­zi­lha­da, em flo­res­ta ou ce­mi­té­rio, com frag­men­tos de ga­tos, co­ru­jas, mor­ce­gos…

En­tre os ami­gos ín­ti­mos, Chi­co Pre­to ria mui­to dis­so tu­do. Nun­ca dei­xou de ser o brin­ca­lhão de to­das as ho­ras. Di­zia que o mun­do sem­pre foi e sem­pre se­rá dos mais vi­vos, que o po­vo é ca­ren­te de ilu­são e só é fe­liz acre­di­tan­do e pas­tan­do. E gos­ta­va de re­pe­tir: “Já di­zia Je­sus na Ga­li­léia que ho­mem que é vi­vo não bo­béia!”

Mas a his­tó­ria te­ve fim trá­gi­co. Acos­tu­ma­do a se­du­zir be­las ove­lhas da ala fe­mi­ni­na de seu re­ba­nho, Chi­co Pre­to foi mor­to a ti­ros, na sa­í­da de um mo­tel. En­vol­veu-se com a es­po­sa de um su­jei­to ciu­men­to, que não per­ten­cia à igre­ja. O ho­mem não acei­tou aque­la his­tó­ria, aque­la mis­tu­ra de se­xo com exor­cis­mo, por ins­tru­ção da San­ta Co­ro­sa… E, na ho­ra agá, a san­ta não te­ve po­der de fo­go con­tra o ódio e as ba­las do ma­ri­do tra­í­do.

De vez em quan­do fi­ca­mos sa­ben­do de ca­sos co­mo es­te. Em­bo­ra ne­nhum de nós gos­te de ser en­ga­na­do, o nú­me­ro dos en­ga­na­do­res au­men­ta a ca­da dia. A cre­du­li­da­de do po­vo pa­re­ce não ter fim. Em to­das as par­tes do mun­do, os vi­val­di­nos sa­bem dis­so. Por quê? Por­que, des­de pe­que­nos, os se­res hu­ma­nos apren­dem que de­vem ter mui­ta fé, que de­vem crer sem du­vi­dar, acei­tar sem per­gun­tar. Apren­dem que Deus só gos­ta de quem tem fé.

Mas nós per­gun­ta­mos: Que ti­po de fé? Fé em quem? Deus gos­ta que te­nha­mos fé em qual­quer um? E se o pre­ga­dor que vi­ve fa­lan­do de Deus nos nos­sos ou­vi­dos for ape­nas mais um en­ga­na­dor? Quem nos ga­ran­te? Co­mo po­de­mos ter cer­te­za?

A fé só é im­por­tan­te quan­do é con­sci­en­te, quan­do não fo­ge da ló­gi­ca e da ra­zão. A San­ta Co­ro­sa que nos des­cul­pe, mas a fé ce­ga nun­ca foi in­te­li­gen­te. A fé ce­ga não agra­da a Deus. Se agra­das­se, Ele não te­ria da­do uma ma­ra­vi­lho­sa in­te­li­gên­cia a ca­da ho­mem, a ca­da mu­lher… A ca­da um de nós.

 (Dalmy Ga­ma, es­cri­tor, pro­fes­sor, do­cen­te de Lo­go­so­fia)

Fonte: https://www.dm.com.br/opiniao/2018/01/cuidado-com-a-fe-cega/

Sobre Fernando Rossit

Fernando Rossit é funcionário público e reside em São José do Rio Preto. Espírita desde 1978, atua em várias tarefas nas casas espíritas "Associação Espírita Allan Kardec" e "Centro Espírita Irmão Gerônimo".

Veja

O Amor que Tenho é o que Dou

“…No seu início, o homem não tem senão instintos; mais avançado e corrompido, só tem …

O Suicida do Trem

Eu nunca me esquecerei que um dia havia lido num jornal acerca de um suicídio …