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A Corrupção Nossa de Cada Dia

Um rato, olhando pelo buraco na parede, viu o fazendeiro e a mulher abrindo um pacote.

Ao descobrir que era uma ratoeira, ficou aterrorizado.

Correu ao pátio advertindo a todos:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira na casa!

A galinha, disse:

– Desculpe-me, sr. Rato. Eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.

O rato foi até o porco e lhe disse:

– Há uma ratoeira na casa, uma ratoeira!

– Desculpe-me, sr. Rato, disse o porco. Mas, não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar.

Fique tranquilo. O senhor será lembrado nas minhas preces.

O rato dirigiu-se, então, à vaca. Ela, num muxoxo, disse:

– Uma ratoeira? Isso não me põe em perigo…

Então, o rato, cabisbaixo, voltou para a casa para encarar a ratoeira.

E naquela noite, ouviu-se um barulho!

Meu Deus, era a ratoeira pegando sua vítima!

A mulher do fazendeiro correu para ver o que estava lá.

No escuro, ela não viu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.

E a cobra picou a mulher…

O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre.

Para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.

O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.

Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.

Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.

A mulher não melhorou e acabou morrendo.

Muita gente foi ao funeral.

Para alimentar todo aquele povo, o fazendeiro, então, sacrificou a vaca!

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Essa estória chama nossa atenção sobre as pequenas ações diárias que julgamos insignificantes, mas que premia, antes de tudo, nós mesmos.

Colocamos, via de regra, nossos interesses, desejos e necessidades em primeiro lugar.

Isso é egoísmo.

Eis que nos flagramos com as frases nossas de cada dia:

A vida me ensinou a não chorar por nada que não possa chorar por mim!

– A farinha é pouca, o meu pirão primeiro!

– Faço tudo que puder por mim, e o que sobrar você distribui para os que estiverem a minha volta!

– Estou pouco ligando para ele!

– Antes ele do que eu (frase quando uma pessoa sofre um acidente).

Longe dos holofotes de Brasília, verifica-se que os mesmos princípios éticos são violados diariamente por milhões de cidadãos comuns:

– “Quando um consumidor de energia opta por fazer um “gato” (uma ligação clandestina à rede elétrica) ou adulterar o medidor de energia, ele emprega o mesmo raciocínio do político corrupto: “Vou levar vantagem e os demais nem vão perceber. Engana-se quem pensa que essas pequenas contravenções atingem apenas a concessionária de energia. A principal vítima desses crimes são os consumidores honestos, que precisam arcar com tarifa mais alta para cobrir parcialmente o rombo deixado pelos contraventores.(1)

Em pleno centro de São Paulo, a maior cidade do país, é possível comprar diplomas falsos que permitem a participação em concursos públicos e, mais comum ainda, atestados médicos, para justificar ausências mais prolongadas no trabalho. Também é possível, sem nem mesmo sair de casa, “roubar” o sinal da TV à cabo do vizinho, sem que ele saiba, ou comprar um aparelho decodificador de sinal pela própria internet e usá-lo para sempre sem ter que pagar mensalidade às operadoras, que, afinal, “cobram muito caro”. A prática é tão institucionalizada que tem até nome: “o gato net”.(2)

Na singela e ilustrativa estória do rato, constatamos que as ações repercutem no todo e que atitudes egoístas podem causar sofrimento e riscos para todos.

Ninguém leva vantagem quando pensa somente em si mesmo. Quem pensa o contrário está se iludindo.

“O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade não haverá descanso para a sociedade humana. Digo mais: não haverá segurança.” (Blaise Pascal – O Evangelho Segundo o Espiritismo)

Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que, quando há uma ratoeira na casa, toda a fazenda corre risco.

Fernando Rossit

Sobre Fernando Rossit

Fernando Rossit é funcionário público e reside em São José do Rio Preto. Espírita desde 1978, atua em várias tarefas nas casas espíritas “Associação Espírita Allan Kardec” e “Centro Espírita Irmão Gerônimo”. (fmrossit@yahoo.com.br)

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