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A Vela ou o Vento?

Sidney Fernandes – 1948@uol.com.br

 O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.

Platão

Perde-se na noite dos tempos o instante em que o homem começou a se relacionar com os mortos. Há inúmeros casos na Bíblia em que vemos o homem às voltas com seres espirituais. Uma das passagens mais belas do velho testamento é a de Tobit e seu filho Tobias.

Decidido a cobrar dívida antiga, Tobit pensou em seu filho para executar essa missão. Inspirado, recomendou:

Meu filho, procura na cidade um homem bom e honrado que te possa conduzir.

Tobias encontrou um homem de belo aspecto que poderia guiá-lo. E a viagem correu às mil maravilhas. Somente muito mais tarde todos descobriram que aquele guia venerável era um anjo enviado por Deus para guiar e proteger aquela família abençoada.

***

A evocação do Profeta Samuel, feita pelo Rei Saul, por intermédio da pitonisa de En-dor; o contato de Jesus com Moisés e Elias, no Monte Tabor, tendo por testemunhas os apóstolos Pedro, João e Tiago; e o encontro de Saulo de Tarso, com Jesus, na estrada de Damasco, que o transformou no gigante divulgador do Evangelho, são alguns dos milhares de exemplos registrados pela história da humanidade sobre o estreito e constante contato do homem com os desencarnados.

Essa estreita convivência com os espíritos, no entanto, estimulou os homens a consultá-los, a princípio, a respeito de questões sentimentais ou relacionadas com a saúde e, depois, a respeito de praticamente tudo.

Nós, espíritas, temos que admitir a existência de abusos e exageros, ao atribuir tudo o que acontece aos desencarnados ou ao evocá-los todo instante para resolverem questões de nossa competência e obrigação, justificando-nos com a expressão de que nos influenciam muito mais do que supomos[1].

A bem da verdade, místicos desinformados ainda continuam vendo, como diria minha avó Duzolina, pelo em ovo e fantasmas em atos meramente corriqueiros do nosso dia-a-dia.

Se a tua louça se quebra, é mais por desazo teu do que por culpa dos Espíritos, dizem os espíritos na questão 530, puxando-nos as orelhas e chamando-nos de volta à realidade. É clássica a narrativa de Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns[2], ao descrever as queixas de um fazendeiro, que atribuía aos desencarnados as doenças e mortes de seus rebanhos.

— A mortalidade ou a doença dos animais desse homem provém do fato de suas estrebarias estarem infectadas e de ele não fazer nada para as reparar, pois isso custa dinheiro — foi a resposta obtida dos guias espirituais.

É preciso muito cuidado e bom senso a fim de evitarmos atribuir à ação dos espíritos todos os acontecimentos desagradáveis de nossa vida, geralmente oriundos de nossa desatenção ou de nossa imprevidência.

Convém lembrar, todavia, que o vento que não se ouve — isto é, os espíritos — pode, efetivamente, influir em nossas vidas. Clássica também é a passagem descrita por Allan Kardec[3] de irmãs que moravam juntas e, durante muitos anos, encontravam suas roupas espalhadas, rasgadas e cortadas em pedaços.

Seria obra do diabo, conforme insinuavam autoridades religiosas da época. Porém, o conselho de um espírito superior esclareceu totalmente o assunto, ao recomendar que aquelas damas deveriam orar para seus espíritos superiores e praticar a caridade para se livrarem daquelas perseguições.

Não digo a caridade que dá e distribui, mas a caridade da língua. Infelizmente, elas não sabem dominar a sua e não justificam, com atos piedosos, o desejo que têm de se verem livres do que as atormenta.

***

— Os Espíritos maus farejam as chagas da alma, como as moscas farejam as chagas do corpo[4] — assim sintetiza Allan Kardec a influência dos desencarnados.

***

A vela ou o vento? Valorizemos a vela. A vida é preciosa, assim como é o nosso corpo, que Deus nos deu de presente para a evolução, na presente vida material. Daqui a pouco, no entanto, seremos como o vento, invisíveis, em nossa condição definitiva de vida.

 

[1] Questão 459, de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

[2] Item 253, de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.

[3] Item 89, de O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec.

[4] Coletânea de preces espíritas, item 16, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec.

Sobre Sidney Fernandes

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Sidney Fernandes (1948@uol.com.br) nasceu em Bauru, em 1948. Gerente do Banco do Brasil e Empresário, hoje está aposentado e se dedica integralmente à veiculação do Espiritismo. Participou ativamente da Mocidade Espírita até integrar-se ao Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru (SP). Escritor e orador profere palestras em várias cidades brasileiras. Veja página deste Autor

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